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Passage

Eu queria antes ter escrito sobre o SBGames 09, mas jogando Passage agora antes de dormir me deu uma urgência maior de compartilhar o que senti jogando.

Passage é um jogo conceito, é uma obra de arte. Não digo isso por ser fã incondicional ou achar que é o novo biscoito que todo mundo vai querer, mas porque esteve na mostra de Jogos-Arte no SBGames. Eu não conheço artes a fundo para poder responder com propriedade “o que é arte?”, mas se arte for algo que nos faz pensar, que traz algum significado (ou nos faz dar significado), então Passage é realmente uma obra de arte.

Antes de continuar a leitura, meu caro leitor, recomendo baixar o jogo e dar os 5 minutos de sua vida que Passage lhe pede.


Pronto? Jogou? Então continuemos a leitura.

Quando o Arthur me mostrou Passage, após visitarmos a mostra de personagens do Ladeh (nesta ocasião, ele e Larissa ganharam o primeiro lugar) eu já sabia que era um jogo sobre a vida (ou a passagem da vida), mas eu não fazia idéia de como ele poderia mostrar essa passagem.

Comecei caminhando em linha reta. Eu era moço, nada conhecia do mundo, andei despreocupadamente experimentando tudo ao meu redor, mas curiosamente só queria andar para frente. Encontrei então uma dama, quem sabe eu poderia falar com ela, e eis que tão ocasionalmente como nos conhecemos, tornamo-nos um só. Para onde eu ia, ela ia também, faria parte de minha vida de agora em diante.

Continuamos a caminhar. O tempo foi cobrando seu preço e as mudanças tornaram-se aparentes. Do verdejante jardim que era minha infância, agora estava em um lugar ladrilhado, uma casa? Minha casa? Então veio a dúvida. Eu posso andar para baixo e para cima? Posso! Mas meu caminho era limitado por minha companheira, não poderia ir a lugares que poderia se não a tivesse encontrado. Posso voltar para trás? Posso, mas não fico mais moço. O tempo, ente inexorável, lembra-me que por mais que tente fugir dele isso é impossível. Sou forçado para frente, mesmo tentando lutar contra o sentido natural.

Então procuro aproveitar cada fase da minha vida. Eu e minha companheira passamos a trilhar o caminho não apenas para frente, mas para cima e para baixo, buscando o que havia em cada baú. Alguns com uma surpresa, outros vazios. E percebo: seus cabelos estão cinzas. Olho para mim mesmo e estou perdendo cabelo. Pouco a pouco vamos ficando vagarosos, tudo o que passou em nossa vida parece se distanciar cada vez mais e o que está por vir, antes uma miríade de imagens que prometiam um mundo inteiro, agora é algo difuso e sem tanta perspectiva. O mundo a nossa volta parece mais frio também. Envelhecemos.

E eis que minha companheira me deixa. Neste momento não conseguia fazer mais nada. Parei. Por tanto tempo caminhei com ela, e agora ela jaz aos meus pés. Estou sozinho, o que posso fazer sem minha companheira, sem aquela que caminhou comigo por tanto tempo? Quase não tive motivação para continuar, mas algo me fez continuar meu caminho, cada vez mais devagar, cada vez mais encurvado. Minha aparência mostrava como estava meu coração, pesado, devagar, quase parando. O caminho está cada vez mais claro, mais branco.

E termino de caminhar. Não há mais adiante, minha vida terminou. Completei minha passagem. Estou morto.

Essa foi a sensação que tive ao jogar Passage. Embora o jogo não use de textos para explicar o que acontece, não te obrigue a pegar os tesouros pelo caminho nem diz qual a importância deles, a história do jogo é construída pelo próprio jogador e o significado dela faz sentido apenas para ele. O que são os tesouros que coletamos pelo caminho, com baús cheios e baús vazios? Eu posso ir a mais lugares, tenho mais liberdade, se eu não tiver uma companheira, mas vale a pena estar sozinho? Não seria melhor ter alguém para me acompanhar nessa jornada, abdicando de alguns tesouros pela companhia da dama?

Passage é um jogo que me fez refletir sobre o que eu sou e sobre minhas decisões. Um jogo que instiga a construção da narrativa pelo jogador e o provoca a pensar a própria vida justaposta à história do protagonista, mesmo com seus parcos gráficos e sons (aliás, a música tem todo um peso. Quando eu era jovem, a música dava uma sensação de aventura, tinha cheiro de algo novo. Quando velho, quando a morte vai se aproximando de mim e de minha mulher, a música era algo triste, envolto em lembranças e angústia sobre o devir nem tão incerto assim).

Volto ao ponto que, se uma obra de arte é algo que provoca reflexão, então Passage é arte.

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  1. outubro 20, 2009 às 04:55

    Depois sou eu que escrevo muito!huahauahuah =PE se me acordar da próxima vez, vai ver só! ran ¬¬hahahahaBeijos Bruno.

  2. outubro 21, 2009 às 11:51

    A Vanessa me cobrou uma reflexão sobre as perguntas que levantei no final do texto. Pois bem, segue minha interpretação.O que são os tesouros do Passage? São as experiências que acumulamos ao longo de nossa vida. Alguns tesouros são vazios, outros possuem algo dentro (que conta pontos). Disso, podemos extrair que as experiências que passamos podem contribuir de forma positiva para nossa vida (quando aumenta a pontuação) ou nada acrescentam (e também não retiram pontos), isso se seguimos do princípio que não há "involução", apenas evolução ou estagnação. Na Matemática, podemos dizer que as experiências em nossa vida constituem uma função monótona não-decrescente. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Fun%C3%A7%C3%A3o_mon%C3%B3tona)Sobre as outras questões, comento quando for oportuno =)

  3. Jan
    outubro 21, 2009 às 12:10

    Ok, viajante. Você podia enviar isso para o Plástico Bolha.

  4. outubro 21, 2009 às 14:39

    É a segunda vez que esse blog apaga meu comentário. Argh.Em suma: Se há expressão e reflexão, eu ouso dizer que há arte. Obviamente isso não se limita aos jogos, mas o que a gente identifica aqui é um uso inteligente do diferencial de uma mídia, a interação, que promove de maneira eficaz a identificação com certa situação. Uma situação comum a todos que é a vida.Até que ponto fazemos escolhas sábias? Até que ponto conseguimos coordenar nossas prioridades? E ao final…compensa?São apenas alguns dos questionamentos que podem surgir na sua mente após jogar. Se eu escrevi essa reflexão antes do jogo existir (http://vagrantbard.com/2008/09/30/uma-musica-arriscada/), tenho certeza que Passage é apenas uma forma de incentivar outros a fazerem o mesmo.

  5. outubro 22, 2009 às 03:27

    mas eu ainda acho mais proveitoso abrir todos os baús sozinhospq como vc mesmo disse, no fim a gente acaba sozinho.não vale a pena perder as oportunidades do caminho pra não ter alguma recompensa no final,as decepções serão sempre maiores que as recompensas e em nenhum dos dois jeitos nós vamos nos sentir satisfeitos.

  6. outubro 22, 2009 às 06:55

    Não vivemos senão através de escolhas. Mesmoq eu escolhamos não fazer nada, ainda assim estamos escolhendo. Um tanto irônico não?O fato é que nem podemos optar pelo acaso completo, se até ele depende das possibilidades que foram abertas em um estágio anterior.Se não sabemos escolher pelo certo (isso se podemos e devemos falar de certo e errado…)ao menos que saibamos que fomos nós que escolhemos. __________________________Sobre a questão de ser obra de arte ou não. Bem, na discussão filosófica contemporânea sobre arte aponta-se para características como a intereção com o espectador, para a mecessidade de transmitir uma mensagem, causar algo no espectador, mesmo que seja algo ruim… Estes foram paradigmas quebrados no decorrer da história da arte. Contudo, apesar de através dessas reflexões podermos classificar o jogo como arte, ainda hoje a arte só é comprovada e renomada se feita por um artista de renome e exposta numa galeria de arte. É o que a teoria costuma chamar de estatudo ontológico da obra de arte: além das características inovadoras anteriormente citadas, ela ainda necessita ser reconhecida. Bem… os critícos de arte que me perdoem, mas não dependo da palavra deles p dizer que o que me transmitiu uma mensagem e o que me comoveu a ponto, de mesmo sem gráficos perfeitos e sem estética (afinal arte contemporânea não necessita de estética, me fazer pensar na minha existência e na sociedade, eu determine como arte.

  7. novembro 8, 2009 às 21:49

    Tirado das aulas de historia e filosofia da arte:"Arte é tudo que o ser humano interfere de modo a gerar um objeto único."(Muitas pessoas podem considerar que muitos objetos como vazos chineses e etc q se ve em lojinhas são "obras de arte" porém nao sao, sao considerados artesanato, que possui intenção financeira e em que os objetos nao são unicos(tem valor em sua raridade como arte) mas são feitos em série com fins lucrativos.

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