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Uma longa discussão sobre autor e obra

Esse post, por ser muito longo, tem um TL;DR no final para o qual você pode pular clicando aqui.

Introdução

Call of Juarez: Drug Cartel pra mim era só um grande erro do foco, algo como Saints Row The Third, em uma série que nunca tinha jogado. Até ignorava o que revistas e sites diziam sobre o jogo após ter feito esse juízo.

Até agora.

O mais recente vídeo do Extra Credits procura mostrar (por favor, dediquem-se a ver o vídeo), além do que eles apontam como falhas grotescas de design, que o jogo faz um desserviço à comunidade ao mostrar os fatos em que se baseia de forma errada, em uma isenção de responsabilidade. Tal fato pode prejudicar os argumentos em defesa dos jogos quanto a questões como seu poder de gerar discussões críticas, ou como um efeito colateral inesperado, o acaba suscitando sem querer, já que aqui estamos falando sobre ele e podemos discorrer sobre o assunto da guerra contra as drogas no México (que eu não tinha noção da real dimensão), um nem tão impossível futuro para nosso país.

O autor e a mensagem

Em outro vídeo do Extra Credits, é comentado que o papel do game designer como divulgador de mensagens e criador de experiências acaba imputando-lhe certa responsabilidade sobre esta mensagem. Infelizmente não tenho uma base teórica para discutir isso, fico apenas com minha opinião pessoal: nem todo autor de obra quer passar uma mensagem, mas acaba transmitindo uma ao causar no outro um julgamento sobre aquilo que o outro vê/lê/interage. Ao termos um contato com uma obra, estabelecemos um diálogo com o autor, mesmo que não intencional, e o conhecimento comum me diz que se há um diálogo, há uma troca de mensagens, e não somos responsáveis por aquilo que dizemos, mesmo quando referenciamos outras pessoas? E como cada pessoa traz uma carga de conceitos e pré-conceitos diferentes, há um entendimento particular desta mensagem (que não pode ser virtual, já que ela é real no momento que se estabelece o diálogo).

Com esse meu raciocínio, apesar de eu mesmo defender que posso criar algo sem intenção de causar reflexão, a mensagem que passo, ou melhor, a reação que causo com o entendimento da minha obra por parte do outro, se não é na totalidade de minha responsabilidade, é pelo menos em parte. Isso acaba invalidando o argumento de que “é só uma obra de ficção, não leve tão a sério”, pois alguém pode nela encontrar uma ofensa a si e isso em parte será culpa do autor.

Novamente, peço aos leitores que lembrem que não tenho base teórica para essa discussão, então se eu disse besteira e estou errado, não se acanhem e escrevam.

Outras opiniões

Após escrever esse post, fui buscar alguma referência sobre o assunto. Esse artigo na Gamasutra, ao contrastar Death Race e Bulletstorm leva a entender que há um limite sobre o que posso fazer, levando em conta uma responsabilidade social nos jogos, principalmente no último, quando houve a intenção de chocar. Já esse artigo do Game Critics sobre os papéis dos gêneros sexuais em jogos defende a liberdade criativa, mesmo que possa ser ofensiva a alguns grupos. Esse post do autor Matt Selznick também vai pela liberdade criativa do autor.

O que vejo é um duelo, de um lado autores defendendo sua liberdade para criar o que quiserem, passando intencionalmente ou não uma mensagem, e do outro os que se sentem ofendidos com a obra. Embora como autor eu me sinta no direito de criar sem barreiras, como consumidor de uma obra, sinto-me no direito de não gostar e continuar o diálogo com o autor, seja comunicando minha insatisfação através de carta, email, mensagem não-direcionada ou criando uma obra resposta ou minha própria versão.

Conclusão

Sabendo da mensagem que Call of Juarez potencialmente pode passar pelo Extra Credits, quem não conhece a obra pode tomar a opinião de James Portnow e Daniel Floyd como verdade e não ter maior contato com o jogo, repudiando-o pelos mesmos motivos, decidir entregar-se a uma apreciação crítica para comprovar ou refutar a opinião anteriormente citada e construir a própria ou decidir experimentar a obra pela obra, abstendo-se de uma crítica mais profunda.

Porém, como autores de uma obra, devemos lembrar que o que fazemos pode e vai afetar outras pessoas, seja para o “bem”, como Jane McGonigal defende como potencial dos jogos, ou para o “mal”, como a visão de Call of Juarez: The Cartel sobre a guerra ao tráfico no México pode passar uma mensagem errada para quem não conhece a história, da mesma forma que um post público no Facebook, neste blog, ou uma piada sobre celebridades e bebês carrega sua dose de responsabilidade.

TL;DR (sem tempo de ler? Que peninha =/)

Autores podem buscar com sua obra passar alguma mensagem, contar uma história, incitar discussão ou apenas fazer a obra pela obra, em algo bem parnasiano. Porém, a obra ao ser consumida cria um diálogo do autor com o consumidor, e como em qualquer diálogo pode have interferências e discordâncias. Ao criar a obra, o autor deve estar ciente de que pode causar controvérsia e ser ofensivo a algumas categorias, assim como o consumidor pode continuar o diálogo expondo sua opinião de diversas formas e não tem obrigação de continuar sendo consumidor se não concordar. Uma questão em aberto que não discuti é sobre os limites da responsabilidade social da obra e da liberdade criativa do autor.

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Categorias:games, sociedade
  1. Isabelle Rocha
    outubro 20, 2011 às 13:22

    Não existe obra que sobreviva sozinha, existe?
    Toda obra requer responsabilidade…um prédio construído, uma obra literária, uma propaganda, e até mesmo o que escrevemos por aqui, como você mesmo citou.
    As questões colocadas são muito complexas, e todas estão interligadas. Por estarem muito generalizadas complica seguir uma direção. Mas o texto é bom, gostei (mesmo não entendendo bulhufas de jogos), e me fez lembrar de de um livro que eu lera “Partilha do Sensível”.
    É isso aí!

  2. outubro 21, 2011 às 16:46

    Confesso que não li seu post pormenorizadamente, por falta de tempo mesmo (tô aqui fazendo um trabalho pra entregar), mas o que eu sei é que há LOOOONGAS discussões teóricas sobre esse assunto. Minha matéria de Teoria da Literatura II de agora é quase que só sobre isso. E te digo que há quem sustente que o autor é responsável pela mensagem inteira, há quem sustente que a obra, assim que é criada (ou seja, assim que sai da ponta da caneta/dedos-no-teclado do autor), passa a ter vida própria e o autor não tem mais absolutamente nada com isso, há os intermediários e há quem não toque no assunto. Definitvamente, isso não é ponto pacífico.
    IMHO, o autor ainda tem algo a ver com a obra depois que ela é criada (principalmente se ele ainda estiver vivo, o que é, obviamente, muitíssimo frequente no caso de jogos eletrônicos…), e se o leitor/jogador chega a uma interpretação X que o desconcerte, maravilhe ou que ele simplesmente queira compartilhar com o autor, isso deve ser feito. Também acho que esse mínimo de conexão que existe entre o autor e a obra devem ser motivo pra que ele tenha também um mínimo de bom-senso ao criá-la, e que não se isente de “culpa”, digamos assim, se interpretações ligadas a preconceito, ofensa e afins forem levantadas.
    Se eu escrevi algo nada a ver, foi mal, deve ser porque não pude ler seu texto inteiro direito.
    Bjs 🙂

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