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Edmund

Atenção! Este post traz spoilers sobre o enredo do jogo indie Edmund e trata de temas delicados que podem ser considerados ofensivos para menores de idade e pessoas sensíveis. É recomendável jogar Edmund antes de prosseguir com a leitura.

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No podcast do Baixo Frente Soco da semana passada, tratamos do tema de jogos adultos. Em específico, nos atemos a jogos de conteúdo erótico, que é um tema controverso, e o bate-papo acabou puxando dois jogos que causaram certo desconforto, cada um em uma mídia diferente: Rapelay e Edmund. Ambos abordam um assunto muito delicado com viéses diferentes, o estupro, que já foi abordado em outras mídias como livros e filmes, como Irreversível.

Rapelay é um jogo japonês em que o objetivo é assediar mulheres e levá-las ao coito forçado. Como não joguei, não posso opinar muito, além do fato de ser uma faceta perturbadora da sociedade: se alguém produz alguma coisa, é porque existe alguém para consumí-la. Afastando da discussão das bizarrias japonesas e de seus porquês (um breve e comum comentário é que devido à cobrança social da rígida sociedade japonesa, existe todo um mercado de formas de escape, das mais bizarras, para todo possível fetiche; mas não nos esqueçamos que a mesma sociedade japonesa mostrou civilidade aos olhos do ocidente durante o acidente de Fukushima, inclusive seus políticos), o grande estardalhaço na mídia televisiva foi o fato do jogo ser um “simulador de estupro”, bem gráfico e sonoro, e por estar a venda em camelôs nas grandes cidades.

Já Edmund, de Paul Greasley, usa gráficos 2D pixelado e o estilo plataforma para contar a história de Edmund, um veterano da guerra do Vietnam que se tornou estuprador. Edmund causou um rebuliço mais comedido por estar restrito à esfera dos jogos indie, sendo comentado como de mau gosto por alguns sites, como CinemaBlend. Eu mesmo condenei Edmund quando joguei pela primeira vez e não entendi muito bem o que acontecia, até o momento do estupro e a reviravolta na trama. O jogo não fez muito sentido até que decidi jogar de novo por ter comentado no podcast. E aí que percebi que Edmund deve ser visto com outros olhos.

A diferença de Edmund para Rapelay vai além dos gráficos. Ao contrário de Rapelay, onde o jogo só acontece se houver o ato do estupro, em Edmund temos a possibilidade da escolha, o sentido de agência passa de “como fazer” para “o que fazer”. O jogador pode escolher conhecer o passado de Edmund, jogando a fase do Vietnam, experimentando de forma limitada os horrores da guerra que podem ter levado Edmund a cometer seu crime, através de um distúrbio pós-traumático, ou será que Edmund já tinha esse desvio antes da guerra?

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Na fase principal, pós-guerra, Edmund pega o taxi de Michael para procurar uma vitima, e é aqui que começam suas escolhas: após encontrar uma garota no ponto de ônibus, Edmund pode estuprá-la ou voltar para o taxi, terminando o jogo. Decidindo pelo crime, o jogador passa a controlar Michael, arrependido de ter feito a corrida que levou Edmund à sua vitima e munido de um revólver que não usava desde a guerra, decide ir atrás de Edmund. Seguindo em frente, bem óbvio e direto, Michael encontra o caminho livre até o apartamento onde Edmund levou a garota, e para os que chegaram até aqui, mais uma escolha: atirar em Edmund pelas costas ou confrontá-lo? Pelo bem da brevidade, vamos assumir que você o confronte.

O diálogo entre Michael e Edmund deixa pista de algo que pode ser percebido logo no início do jogo, quando Edmund sai do taxi: eles são a mesma pessoa, apenas consciências diferentes, como o Médico e o Monstro. Edmund, a personalidade do estuprador, tenta convencer Michael, o taxista que tenta viver honestamente após os horrores da guerra, a estuprar a mulher. Mais uma escolha para o jogador: aceitar o domínio de Edmund e estuprá-la ou lutar contra Edmund e dar um fim à perversidade?

A diferença na abordagem do assunto tão polêmico faz de Edmund, um jogo com gráficos mais simples, ser superior a Rapelay. A única recompensa que Edmund oferece ao jogador é uma história como a de um livro ou filme do gênero thriller, com diversos finais dependentes da ação do jogador, enquanto Rapelay apela para facetas um tanto obscuras, odiosas e doentias da humanidade.

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Categorias:games
  1. novembro 22, 2011 às 01:01

    Contrariei o que vc disse e li o texto antes de jogar 😀
    Gostei do texto, e a abordagem do jogo parece bem interessante, jogarei e comento depois

    • novembro 22, 2011 às 01:09

      É que ler o texto estraga a grande surpresa do jogo, mas o gameplay é meio quebrado, não tem muita dica visual mostrando o que fazer nem explicando (justamente pra deixar o entendimento da história a cargo do jogador). Vi um “Let’s Play” no YouTube que mostrava isso, o cara aprendia a usar a arma pra abrir a porta quase que na sorte.

      Uma conseqüência disso é que muitos desistem logo, achando chato, sem sentido ou até mesmo apologia ao estupro. Acabam perdendo a história. Mas é possível argumentar que, por ser pequeno, não oferece espaço para ensinar a jogar.

  2. Pedro Luchini
    dezembro 26, 2011 às 14:36

    Finalmente baixei o game para jogar e ver do que se trata. Joguei a fase do Vietnã uma vez (pois não parecia haver caminhos alternativos) e a fase de Detroit três vezes. Não achei nenhum final alternativo, apenas maneiras diferentes de Michael morrer (caindo num buraco, atirando em Eddie antes de confrontá-lo, atirando em Eddie após confrontá-lo). Eu inclusive tentei voltar para o taxi como Eddie, mas nada aconteceu.

    Confesso que não ficou muito claro para mim que eles eram a mesma pessoa. Michael simplesmente cai no chão depois que Eddie leva o tiro, o que eu inicialmente interpretei como ele sofrendo um colapso nervoso ou desmoronando em prantos por ter matado alguém.

    Onde está o “Let’s Play” que você assistiu?

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