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Mataram animais no meu Facebook

Ahh, a internet, esse nosso cantinho onde podemos nos expressar, comunicar, trocar conhecimentos… e sermos seres humanos. Acho que essa é a pior parte.

Como seres humanos, somos seres sociais e queremos tomar parte em qualquer discussão. Eu mesmo, ao escrever estas linhas, estou tomando parte em uma e até mesmo quem decide por não tomar partido, está se intrometendo de alguma forma, pois está, no final das contas, se posicionando em relação ao assunto. Já devo ter discutido sobre isso em algum momento neste blog, sobre alguma modinha que as redes sociais colocaram em voga e tão rápida quanto chegou, partiu, além é claro de como as pessoas colocam seu ponto de vista de forma, digamos, um tanto quanto passional.

Podemos dizer que esse espaço virtual é um verdadeiro criadouro de trolls. No jargão, trolls são participantes de discussões que estão ali pelo simples prazer de criar a confusão, provocando flame wars (verdadeiras guerras de mensagens ofensivas entre pessoas) que apenas alimentam mais trolls, gerando um ciclo que destrói qualquer tentativa de uma discussão melhor. Porém, alguns trolls acabam sendo de fato engraçados e conseguindo, através de suas armadilhas e piadinhas, expor um ponto de vista crítico.

A última trollada que vi e achei bastante graça foi em relação à maré de fotos contra violência animal no Facebook. Deixe-me explicar a minha posição, caro leitor: adoro cachorros, até gosto de alguns gatos e acho que maus tratos aos animais são repreensíveis. Portanto, não gosto de ver fotos de animais mutilados ou rapazes ostentando dúzias de gatinhos decepados, porém percebam que não é um caso de tapar o sol com a peneira ou olhar para o lado: ficar replicando essas imagens não é só informativo, é ofensivo e pode ser visto como apologia (esse ponto pode ser polêmico). Eu particularmente não gosto de ver no meu feed de notícias pessoas esfaqueadas, cães mutilados ou formigas tostadas por uma lente. Você viu um crime? Denuncie, não precisa ficar mostrando pra meio mundo que só vai falar “Que horror!” e tecer palavras de ódio ao criminoso. Amanhã ninguém lembrará do rosto da pessoa nem negar-lhe-á a venda de um produto ou serviço…

A divulgação dessas imagens e vídeos representa algumas facetas do ser humano: precisamos nos sentir em comunidade, o ódio do grupo contra um algo em comum – um torturador de animais, por exemplo – nos faz sentir pertencentes à sociedade por compartilhar os valores; nos chocamos com a violência, mas precisamos chocar o outro (e isso não é ser violento com o outro também?).

Frente a essa onda de vídeos e imagens, a essa onda de ódio e revolta (que na maior parte dos casos fica restrita às redes sociais e depois está todo mundo no bar comentando o jogo da semana), surgiu um sem número de piadas críticas, paródias dos pôsteres de ódio, mostrando desde um Scar (do Rei Leão) como fratricida e usurpador a Luke Skywalker como um terrorista que matou milhares de trabalhadores na Estrela da Morte, passando por diversos personagens históricos e fictícios.

As críticas subentendidas nessas piadas são várias: desde a simples percepção de que não é só falando e divulgando que algo será feito, até a que somos uma sociedade por natureza violenta e que consome violência (fica pra um outro dia isso, mas é um dos motivos de gostarmos de filmes de terror e de ação, a vida da barriga de chopp na cidade nos tirou o sabor de sobreviver aos perigos da vida anterior à civilização e é através das mídias que consumimos que voltamos a experimentar algumas dessas sensações). Exponho a seguir um dos quadrinhos de crítica a essas divulgações e revoltas em massa que me fez pensar um pouco mais sobre o assunto.

Não é a questão de que a quais problemas damos prioridade que essa imagem me chamou atenção (realmente, as suas prioridades são diferentes das minhas, natural que seja assim) mas ela me fez pensar: será que nos tornamos tão acostumados com o que vemos nos jornais e televisão sobre violência e corrupção, que isso se tornou cotidiano, e tão lugar-comum, e agora precisamos de algo diferente para nos chocar, como violência contra animais?

Ou essa revolta é a ação de nosso comportamento social, em que tentamos nos enquadrar ao grupo nos chocando e revoltando juntos? Contra o que será que amanhã nos revoltaremos, e como fica a situação dos temas que se tornaram “tão semana passada”, como a polêmica de Belo Monte hoje e a violência contra animais amanhã?

PS: Um dia falo sobre a Teoria da Convecção entre Redes Sociais, que tenta explicar termos como “orkutização do Facebook” e que um dia diremos “facebookização do Google+”.
PS2: Lembrem que aqui posto minha opinião, ela não necessariamente está embasada em algo acadêmico, pode ser apenas observações minhas que para você não fazem sentido.

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Categorias:fail, sociedade
  1. Jan
    dezembro 18, 2011 às 11:24

    O ser-humano tem esse desejo de culpar os outros, de se revoltar e protestar. Infelizmente, esse desejo não costuma ser canalizado para as coisas mais importantes e acaba indo embora muito rápido, como você mesmo falou.

    Como eu já disse antes, a revolução começa no dia-a-dia.

  2. Pedro Luchini
    dezembro 18, 2011 às 12:27

    …O que significa “orkutização do Facebook”?

    • dezembro 18, 2011 às 12:54

      Quando o Orkut estava em seu auge, a entrada de muitas pessoas e a falta de uma etiqueta para redes sociais trouxe coisas como posts com ASCII Art de animais, lavação de roupa suja em público, postagem de fotos impróprias e outros comportamentos similares.

      O Facebook estava livre disso até que quem ainda usava o Orkut percebeu o sumiço das pessoas que falavam: “Abandonei isso daqui, estou indo pro Facebook”, e seguiram o fluxo. Então os correspondentes às características da orkutização começaram a aparecer no Facebook e a expressão “orkutização do Facebook” nasceu.

      Sim, isso é elitismo nas redes sociais em sua melhor forma, digamos que é o equivalente de “pessoas diferenciadas” da elite paulistana de Higienópolis.

  3. Pedro Luchini
    dezembro 18, 2011 às 12:57

    Maldita inclusão digital.

  4. dezembro 18, 2011 às 23:38

    Oi Bruno!

    Até entendo o vc escreveu, e concordo que algumas fotos são realmente violentas demais para serem compartilhadas. Entretanto, o feed de notícias é realmente para ver o que o outro tá querendo mostrar, e se ele quer compartilhar uma foto dessa, ele tem direito não!? Isso é parte da liberdade. Agora se é conveviente, ou não, isso é questão de bom senso e educação.

    Acho um ponto importante ressaltar que muitas vezes alguém compartilha um link simplesmente para chamar a atenção pra algo, mas não que isso signifique salvar o mundo; ou simplesmente para dizer que se importa com isso. Veja meu caso: compartilhei algumas vezes imagens contra violência aos animais, ou em favor dos animais (tipo eu amo gatos, gato é fofo, bichinho é tudo de bom), mas tento fazer dessas mensagens também postura de vida. Minha prioridade (se não me engano estás falando de uma imagem com o título “prioridade, cada um tem a sua”) seria mesmo salvar um bichinho do que meu computador. E acredito que essa é a diferença, fazer da publicação de mensagens, também uma atitude de vida. Eu salvei essa semana passada uma família felida da rua. Avhei um filhote morto, e tomeu uma atitude com os outros, levei para uma veterinária, e paguei para eles ficarem lá serem cuidados e doados. Fiz o que tava ao meu alcance.

    Só falar e não fazer, não faz sentido afinal!

    • dezembro 19, 2011 às 17:20

      Eu até tinha pensado em te citar como um exemplo de pessoa que faz, ao invés só de ficar falando aos quatro ventos o que é errado e não tomar atitude, mas preferi evitar a exposição.

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