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Conto: Das tardes melancólicas

Acordei hoje com vontade de escrever este conto. Veio a mim a idéia do início e do fim e precisava botar no papel. No final das contas, escrevi no tablet mesmo em um momento de reflexão. Aos leitores fica o aviso: favor avisar quaisquer erros de português ou estilo para correção.

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Das tardes melancólicas

Estava ele ali sentado na varanda de sua casa vendo a tarde passar. Pela manhã tinha saído com o filho a pescar, trouxeram poucos peixes mas foi o tempo com sua cria que realmente importou. Sua vida agora era assim, casado, cuidando do filho e o preparando para o mundo. Mas as tardes, ah as tardes, eram melancólicas às vezes.

Quando mais jovem, o mundo lhe pertencia. Saído de uma vila no interior, criado por mãe e tios, ouvia as histórias de grandes heróis, verdadeiros mitos que daria tudo o que tinha pra conhecer. Sempre lhe agradaram tais façanhas, sentia que aquilo estava em seu sangue e que era uma oportunidade de sair daquele lugar bucólico e abraçar o mundo.
Contou-lhe sua mãe da história de seu pai, dela ouviu os feitos dele, não podia mais ser segurado em casa, a aventura estava em seu sangue e com um aceno e poucas coisas nas costas, tomou o mundo.

Com um bando de amigos feitos no calor da batalha ou em uma conversa regada a bebidas, defendeu os fracos, corrigiu injustiças e tentou gravar seu nome na história. Quantas vezes eles salvaram a liberdade e a vida de povoados e reinos sem que soubessem o que havia se passado, que perigos enfrentaram, que amigos seus faleceram. Em um mundo onde gigantes do passado e do presente tomam as canções de ninar dos infantes, cuja maior aspiração na vida é sair da vila para ir à capital, algumas coisas merecem ficar às escuras. Compartilharia seus feitos com aqueles que entendessem o fardo que carregavam, traria as histórias aos bardos e elas seriam passadas a outras pessoas como apenas histórias, mais um herói, um mito que os jovens nunca conheceriam.

Mas agora estava na mesma varanda de todos os dias, na mesma tarde melancólica que lembrava de sua vida de aventuras. Não se pode criar uma família sem estar presente, sem cuidar da mulher e do filho. Não se pode dormir em paz temendo pela segurança deles, quando um déspota cujos planos foram arruinados desejaria vingança. Largou essa
vida e assentou, diferente de seu pai que morreu em campo, aventurando.

Mas sua mulher sabia de sua melancolia. Sabia que um dia o filho chegaria a tomar a mesma decisão que seu marido tomou quando jovem. E por isso ela não reclamou quando seus velhos amigos apareceram em sua casa, no final daquela tarde e o chamaram para mais uma aventura. Mesmo que fosse apenas descobrir cavernas ali perto, ele estaria feliz, e ela por ele, pois a aventura nunca sairia de seu sangue.

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Categorias:contos
  1. Igor Kindred
    janeiro 22, 2012 às 12:56

    Boa garoto, ótima história.. esse é o futuro de muitos de nós.. e quem sabe até o meu XD

  2. Pedro Luchini
    janeiro 22, 2012 às 14:59

    Vivemos em uma sociedade que valoriza demais a juventude. Não somos devidamente preparados para lidar com o tempo, e por isso bate aquela depressão quando seus efeitos inevitavelmente aparecem.

    É algo que permeia todos os aspectos da nossa cultura, inclusive a ficção. Quase toda narrativa — seja ela na literatura, cinema, video game, etc. — termina com o protagonista encontrando seu amor e despedindo-se dos amigos que fez durante a aventura, deixando implícita a mensagem que dali pra frente nada de interessante vai acontecer. Não existe glamour na vida adulta.

    Vivemos agarrados à juventude, fazendo de tudo para que ela não acabe e tentando prolongar uma vida vazia e sem futuro. Das tardes melancólicas é um reflexo dessa mentalidade doentia da qual todos nós somos vítimas.

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