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O novo futebol

Algo me preocupa nesse momento político que vivemos. Quando adolescente, defendi meus ideais, queria acreditar em um mundo belo e fantástico, em que o trabalhador oprimido teria voz e se ergueria da massa para ser dominante ao invés de dominado. O sonho morreu com a inocência do adolescente. A realidade da política se abria aos olhos que passavam a enxergar os fios que controlam o mundo e nada mais era belo e inocente.

Por algum tempo pensei: precisamos de heróis. Ter um herói em quem acreditar, em quem confiar, em quem depositar a esperança, etc., é algo que traz paz ao coração e à mente dos que se sentem oprimidos e desejosos de mudanças. Se não temos mais uma figura histórica ou religiosa por quem esperar, se não há mais um Dom Afonso Henriques que reunificar o estado Português, não há esperança para o povo. Assim fizeram-se “heróis” a ocupar esta vaga. E na queda desses “heróis”, quando seus podres vêm à mostra, inimigos da nação são feitos e novos heróis são necessários.

E é aqui que me preocupo. Elegeram novamente um herói, afinal, a placa de “Precisa-se de heróis” estava afixada em nossa grama. Trouxeram seu brasão ao peito, são uma única família sob uma mesma bandeira, sob uma mesma causa: eliminar a escória que tomou o poder. Dedicam seus dois minutos de ódio ao feito inimigo público, tal qual Orwell nos mostrou, expoem os podres dele, xingam, apedrejam, transformam cada aparição do mesmo na vinda do anti-Cristo. Afinal, não pode haver um herói sem um mal ser derrotado.

Quando decidi retornar ao mundo de que me afastei pra cuidar da minha senda acadêmica, deparo-me com fanáticos extermistas, ansiosos pelo seu herói declarado. Fanáticos. São apaixonados e não estão errados por se deixarem levar por paixões assim, nada que não esperaria de adolescentes. Resolvi aquietar e não os criticar, afinal, adolescentes estão cegos pelo seu coração que tapa os olhos e cala os ouvidos com seu brado forte e retumbante.

Retorno ao meu abrigo do mundo externo, abrigo este que será violado pelas escolhas que farei e que outros farão, tanto os adolescentes quanto os guiados pelo cabresto. Porém, reservo-me o direito de anotar o nome daqueles que expulsaram dos pulmões o berro por seu herói.

Em 2 anos, indaga-los-ei se valeu a pena. Se não valeu, quero ver como se comportam, se estão indignados, se mentem sobre sua escolha, como terão amadurecido esses adolescentes. Se valeu, não há porque se exaltarem contra os que duvidaram de sua fé, afinal, todos teremos ganhado com isso.

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Categorias:Rio, sociedade
  1. Isabelle Rocha
    outubro 2, 2012 às 00:26

    Ótimo texto!
    O pouco amadurecimento nos leva a isso, compreensão e paciência. Esperemos, mas sem perder as esperanças, afinal, sem ela, o que nos vale?

  2. Lidiane
    outubro 2, 2012 às 00:53

    Não precisa se preocupar. A esperança venceu o medo – do senso comum. E, aos trancos e barrancos sim, mas está funcionando pra quem tem necessidade. Agora pode ser a hora do Rio. Oremos.

  3. outubro 2, 2012 às 01:02

    Acho que eu, e todos os adolescentes que levantam a bandeira e apontam esse ‘batsinal’ para o céu em momento de campanha esperamos tanto quanto você que daqui a dois anos não tenhamos que responder essa pergunta, e que tudo corra a contento.
    Mais que um voto partidário ou ‘de direita’ e ‘de esquerda’, esse voto é um voto de confiança. E se esse herói se provar só mais um bandido, espero que os mesmos que o aclamaram o critiquem.

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