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Memento mori

Quando estava terminando a graduação e começando o mestrado, quase perdi meu pai para uma trombose. Algo similar não me permitiu conhecer meu avô paterno. Quando isso aconteceu, eis que aquele manto da imortalidade e da invencibilidade perante o tempo que cobre o adolescente, agora adulto, cai um pouco. É o momento que o jovem percebe que seus pais não são eternos, que aquela segurança e proteção que eles oferecem não durará pra sempre. É duro se acostumar com isso, é duro você perceber no outro que ele também percebeu que é mortal. Você fica contemplativo e dá mais valor a passar um tempo com seus velhos. Mas isso é só o começo.

O resto do manto da imortalidade pode cair de várias maneiras: uma delas é experimentando a morte. Talvez isso já tenha ocorrido comigo em um quase atropelamento, não sei, mas deve ter sido quando ainda carregava o manto da imortalidade e da invencibilidade. Mas comigo o resto do manto caiu de outra forma: encontrando amigos de infância e vendo como mudamos, como envelhecemos. Quando seus amigos começam a ter emprego, procurar uma casa, pensar em casamento, você já se percebe em outro momento da vida. Quando os filhos aparecem, o cerco se aperta. Você não é mais um jovem adulto, você já trabalha e tem responsabilidades. Você está chegando lá.

Aniversários são para comemorar o nascimento, mas também são para comemorar que ainda estamos aqui. Sobrevivemos a cada dia as intempéries de Gaia modificada por nós e da sociedade que criamos. Estava nesse aniversário comemorando duplamente a vida: tanto a permanência quando o surgimento de uma nova vida, alguém ainda por vir que experimentará esse mundo que criamos. Não sou pai, talvez um dia serei, mas acredito que no momento que sabemos que temos um filho vindo as nossas preocupações mudam para criar um lugar melhor para ele viver.

Reunidos ali na comemoração, começamos então a conversar. Os assuntos podem ainda ser os mesmos ou pelo menos relacionados ao que nos une como amigos, mas o enfoque é diferente. Conversamos sobre nossos cabelos brancos, sobre nossa estabilidade profissional, familiar, do teto onde morar. Conversamos sobre ídolos que se foram e ídolos que ali ainda estão, discutimos biografias, falamos com saudade do passado e agora com propriedade maior e profissional sobre os assuntos que nos interessam. Crescemos. Não somos mais os adolescentes que tinham todo o tempo do mundo e se perguntavam que país é esse, mas ainda queremos que quem inventou o amor nos explique, por favor.

Foi nessa agradável noite com amigos muito queridos, onde falamos sobre quais alimentos são melhores pra nossa digestão de já quase 30 anos em meio a planos de casamento e mudanças profissionais, que percebi a queda a última alça do meu manto da imortalidade. Estou quase lá no ápice da minha vida. Tal qual meus pais, não sou mais imortal. Apesar da constatação ser quase pontual, todos os sinais estavam ali desde que saí da casa dos meus pais: morar sozinho, procurar emprego, estudar por conta própria, lavar a roupa, limpar a casa, cozinhar a própria comida, não ter a todo momento o colo dos pais quando os problemas batem e você precisa enxugar sozinho as lágrimas e erguer a cabeça… Muitos sinais de que não sou mais imortal.

E com a certeza de não ser imortal é que a vida tem seu brilho aumentado. Cada momento deve ser vivenciado em sua plenitude, cada amor vivido ao máximo de sua paixão e de sua dor. O momento junto aos pais é mais sagrado, eles podem não estar mais ali amanhã. O momento junto aos amigos também é sagrado, amanhã podem não estar mais perto de você. Amanhã você pode não estar mais aqui e a última coisa que vai querer é se arrepender de não ter vivido.

“Lembra-te, homem, que morrerás um dia.”

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Categorias:nostalgia
  1. Laura
    julho 30, 2013 às 14:07

    Meu filho já é um adulto!

  2. Décio
    julho 30, 2013 às 21:07

    adorei o texto, chupim, resumiu perfeitamente essa fase que estamos vivendo!

  3. fcbacelar
    agosto 12, 2013 às 00:42

    Rapaz, esse foi um dos melhores textos que li esse ano.
    Perdi um amigo de infância há algumas semanas e isso me fez refletir bastante.
    É estranho como certos acontecimentos nos levam a valorizar muito mais as pessoas que prezamos e o tempo que temos.

  1. outubro 2, 2013 às 17:23

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