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Da experiência do cinema

março 8, 2014 1 comentário

Há um bom tempo não tenho a mesma regularidade de ir ao cinema que tinha quando no final da adolescência (se ainda podemos chamar assim o período dos 17 a 19 anos, já ouvi falar que “adulto” agora é a partir dos 27 anos, mesmo que legalmente com 18 você já seja adulto). Perdi muitos filmes que queria ter visto na telona, no meio daquela multidão e acabei vendo em casa ou então perdi mesmo (entrando na lista do Clube da Vergonha), mas a experiência de ver um filme em casa não é a mesma de ver na sala de cinema.

Quando você está em casa, tem todo o controle da situação: se o telefone tocar, pode pausar o filme (se não for em emissora de TV), você sabe se o seu sofá é duro ou macio e pode adicionar umas almofadas, a geladeira e o microondas estão logo ali para fazer a pipoca e pegar os refris quando quiser, está na companhia de pessoas selecionadas ou sozinho, curtindo seu filme debaixo de um edredon, com as luzes apagadas.

O apagar das luzes em casa é similar ao apagar das luzes da sala de cinema, é a entrada no círculo mágico do espetáculo, a assinatura do contrato da suspensão da descrença. É aqui que você, espectador, joga pra trás todos os seus preconceitos e vai se surpreender, acreditar, se emocionar e aceitar as explosões, a fantasia e a maravilha do filme, com todas as quebras de leis físicas, de sequência lógica e de qualquer sentido pelo bem da história e da diversão (considerando que você não vá ver o filme para análise crítica, está indo já com a intenção de ser enganado, se cair no truque do mágico).

Mas a casa não é o cinema. Não importa o tamanho da sua TV, a qualidade do seu sistema de som e da imagem, sem a atmosfera do cinema, não é igual. Pode-se repetir o ritual do apagar das luzes, dos trailers e da apresentação das empresas que participaram do filme que criam a expectativa do que vem a seguir. O cinema é caótico e sua beleza está nesse caos!

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Quando o bilhete foi comprado, você pôde escolher a sessão que queria ver (ou pela disponibilidade ou para evitar um tipo de público específico), escolheu o lugar que queria entre os disponíveis (e a dica para filmes 3D é estar o mais centralizado possível no cinema, o 3D é calibrado para aquela região), mas não há controle de quem vai se sentar ao seu redor. Pode ser alguém que compartilha da ideia de aproveitar o cinema em silêncio, pode ser a turma que vai conversar e comentar o filme, alguém que vá chutar sua poltrona toda hora… Não há controle.

Há filmes que você quer curtir em silêncio, em um momento de introspecção. Apenas o Fim, filmado na PUC, foi um desses filmes. Fui assistir sozinho em uma das últimas sessões naquele dia e as pessoas conversando ao redor me incomodaram. Pra falar a verdade, a maioria das vezes que escolhi ir ao cinema sozinho não deram muito certo, talvez eu tenha um certo azar em fazer isso.

Mas uma das experiências mais incríveis que tive no cinema foi ver Os Vingadores. Naquela sala havia várias tribos: dos adolescentes no florescer da juventude querendo ser adultos ao nerd com camisa do Capitão América tão apertada que fica constrangedora para quem olha (mas não pra ele que não se importa e ostenta com orgulho o símbolo de seu herói). A cada cena empolgante era visível e emocionante a reação conjunta da platéia: todos vibravam, batiam palmas, comemoravam com seus heróis, quem conseguia se segurar com “Puny god!”? O público era um só, sufocados os pontos dissonantes. Alguns (eu inclusive) espalhados pelo cinema viravam para seus acompanhantes e comentavam as cenas, tentavam prever as seguintes, estavam não mais vendo a obra, mas especulando, construindo e sonhando.

Em uma apresentação especial da animação nacional Uma História de Amor e Fúria também percebi essa unicidade do público, mas em um outro aspecto: o da revolta com o descaso. A apresentação teve diversos problemas, apagaram o projetor com o filme no meio e deixaram o som rolando, luzes acesas, demora em corrigir o problema… Mas lá estava o público reclamando, indo em conjunto à sala de projeção exigir o devido respeito, não pelo dinheiro investido, mas o respeito ao consumidor e à obra nacional, como era percebido no discurso dos presentes.

Embora nem todos que estiveram comigo no filme dos Vingadores compartilhem dessa ideia, para mim a magia do cinema está nessa união do público, de pessoas diferentes que não se conhecem tendo a mesma reação de espanto, de comemoração, de revolta… Compartilhando emoções e seus pontos de vista, comentando com o amigo a cena e até mesmo com o estranho ao lado. Faz parte do círculo mágico do cinema a interação do público com o filme e do público entre si.

E você, qual sua opinião sobre a experiência do cinema? Qual história, boa ou ruim, tem para compartilhar? Deixe nos comentários.

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Sousveillance

Cada vez mais somos vigiados, gravados e analisados. Vivemos atrás de grades com câmeras constantemente seguindo nossos passos, registrando nossas ações em fotos seqüenciais com ou sem áudio.

Somos vigiados por nossa própria sociedade baseada no medo. Medo de que o outro nos atinja, medo de que o outro deseje o que é nosso, medo de que o outro seja diferente. Somos fruto de nossas próprias decisões e ações, de nosso próprio medo, e assim nos enclausuramos e nos afastamos, cada vez mais.

O fato de um segurança do Shopping Leblon vir reclamar comigo que eu estava filmando o shopping (mesmo sem o estar) me revoltou. Eu sou filmado pelas câmeras de segurança, sou tratado como uma potencial ameaça, não poderia eu mesmo me proteger de outras potenciais ameaças, gravando seus passos e suas ações? Por que aceitamos ser filmados quando podemos processar o uso de nossa imagem, quando podemos pedir e exigir não termos nossas faces gravadas em filme?

Lembrei de uma aula de Design, onde a professora falou de Steve Mann. Em um de seus projetos, sua crítica (e estudo) à vigilância, entrava em lojas com uma filmadora acoplada à roupa (no conceito do wearable computing). Essa é a Inverse Surveillance.

Isso que era um estudo é visto hoje como uma prática comum. Em uma era de Web 2.0, de enciclopédias colaborativas e por uma computação colaborativa, raro é não ver algum vídeo amador ser divulgado em sites como Youtube. É mais fácil denunciar e mostrar com as ferramentas de hoje, é fácil entender porque os que dizem ser autoridade temem as câmeras. Para mais exemplos e uma alfinetada na mente de quem ainda não percebeu a que ponto podemos chegar, sugiro a leitura de 1984 (que me causou calafrios) e ver The Final Cut (obrigado Guilherme pela aula de Fotografia =) ) .

E no final das contas, era isso que eu estava “filmando”. Sendo um vídeo uma seqüência de fotos, no final das contas, o segurança não estava errado em dizer que eu estava “filmando” não é? Apenas que foi apenas uma imagem, estática. Uma foto.

Atualização:
http://www.popularmechanics.com/technology/how-to/computer-security/taking-photos-in-public-places-is-not-a-crime?click=pm_latest

E aqui no Brasil, alguém sabe o que a lei diz sobre isso?

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